Cyaneae: a cidade lícia dos sarcófagos no cume rochoso
No cume rochoso e íngreme acima da aldeia de Yavu, na região de Demre, na província de Antália, encontram-se as ruínas de uma das cidades mais invulgares da antiga Lícia — Cyaneae (em turco, Kyaneai; em lício, Xban-). Chegar até aqui não é fácil: são 30 a 40 minutos por um trilho entre carvalhos e zimbros, passando por fragmentos de mármore espalhados. A recompensa é um campo inteiro de sarcófagos da Lícia preservados, dispostos densamente entre as ruínas da cidade. Daqui, abre-se uma vista para a baía de Kekova, a ilha de Kekova e o mar ao longe. Cyaneae é um local onde a arquitetura funerária da Lícia se manifesta de forma quase mais densa do que em qualquer outro lugar.
História e origem
Cyaneae é conhecida pelos autores antigos desde a época helenística. O nome lício da cidade — Xban- — aparece em moedas e inscrições; o nome grego Κυανέαι é por vezes derivado da palavra «azul» (κύανος), embora a etimologia exata seja objeto de debate. Segundo uma das hipóteses, a cidade abrangia três povoações vizinhas — propriamente Yavu, Tousa e Ghiouristan — ligadas por um território urbano comum.
No âmbito da Liga da Lícia, Cyaneae era uma das várias cidades influentes. Segundo os dados disponíveis, ocupava um lugar de destaque ao lado de Phellos e Candyba. Na época romana, a cidade recebeu o conjunto típico de edifícios públicos — teatro, ágora, banhos, aqueduto. Aqui também funcionava um pequeno santuário — o oráculo de Apolo Tirxeu (Apollo Thyrxeus), mencionado por Pausânias.
Na época bizantina, Cyaneae tornou-se sede episcopal. Por volta de 640, o bispo da cidade figurava como o décimo quinto entre os sufragâneos do metropolita de Myra. Após as incursões árabes e os terramotos, a cidade foi-se esvaziando gradualmente; a população mudou-se para a vale, enquanto a cidade fortificada de pedra no cume ficou desabitada e se preservou quase sem alterações posteriores.
Arquitetura e o que ver
Sarcófagos da Lícia e necrópole
A principal impressão visual são as dezenas de sarcófagos da Lícia com as suas características tampas «ogivais», que imitam o casco de um navio virado ao contrário. Estão dispostos em grupos ao longo do trilho e entre as ruínas da cidade, por vezes literalmente a um passo uns dos outros. Pela sua densidade e estado de conservação, esta é uma das necrópoles da Lícia mais impressionantes. Em muitos sarcófagos são visíveis relevos e inscrições lícias/gregas.
Túmulos rupestres
Nas falésias que rodeiam a cidade, foram esculpidos túmulos rupestres típicos da Lícia, com fachadas que imitam a arquitetura em madeira: com vigas, frontões e, por vezes, colunas. Na zona de Ghiouristan, conservam-se três sepulturas rupestres particularmente grandes.
Teatro e acrópole
Na encosta sul — um teatro da época romana com cerca de 50 metros de diâmetro. Conservam-se fileiras de bancos de pedra e parte da scaenae frons. Mais acima — a acrópole com secções de alvenaria poligonal e paredes ciclópicas, típicas da fase arcaica.
Cisternas e edifícios públicos
A água no cume sempre foi um problema: os habitantes de Cyaneae escavaram cisternas na rocha para recolher água da chuva — existem várias dezenas delas, e muitas ainda se conservam até hoje. Também são visíveis as fundações de banhos, da ágora e de várias igrejas paleocristãs.
Factos interessantes e lendas
- A densidade de sarcófagos da Lícia em Cyaneae é uma das mais elevadas da região. Os arqueólogos contabilizam aqui e nos arredores mais de cem túmulos de pedra preservados.
- O nome lício Xban- foi preservado nas moedas locais. Trata-se de um exemplo raro de registo direto do nome autóctone da cidade na epigrafia.
- O Oráculo de Apolo Tirx, mencionado por Pausânias, fazia parte dos oráculos da Lícia. A localização exata do santuário em Cyaneae ainda não foi definitivamente identificada.
- A atual «Lykische Survey» alemã (desde 1989 sob a direção de Frank Kolb) investigou Cyaneae como um dos principais locais para o estudo da paisagem rural da Lícia — uma série de publicações reconstrói a estrutura das propriedades em torno da cidade.
- Na época bizantina, a sé de Cyaneae era considerada sufragânea de Myra (terra natal de São Nicolau) — cidade situada a uma hora de caminho abaixo da montanha.
Como chegar
Cyaneae situa-se na província de Antalya, distrito de Demre, coordenadas GPS: 36.247, 29.818. O aeroporto mais próximo é o de Antalya (AYT), a cerca de 150 km por uma estrada costeira sinuosa que passa por Finike e Demre. É mais conveniente ir vindo de Demre (Myra) ou Kaş — ambas as cidades ficam a cerca de 25 km da subida.
Existem autocarros locais (dolmuş) que ligam Demre e Kaş à aldeia de Yavu. Da aldeia até ao sítio arqueológico, há um trilho pedonal com cerca de 2–3 km de extensão e um desnível de 200 metros. Existe também uma estrada de terra batida para veículos todo-o-terreno, mas fica intransitável quando chove. É possível contratar um guia ou um burro na própria aldeia.
Dicas para o viajante
O mais importante é o calçado: o trilho é pedregoso, a inclinação é íngreme e há fragmentos de mármore escondidos na relva. São obrigatórios água (mínimo de 1,5 litros por pessoa no verão), chapéu e protetor solar. A melhor época para visitar é abril–junho e setembro–novembro; no verão, a subida na encosta aberta é muito difícil.
Reserve pelo menos 3–4 horas: 40 minutos para a subida, 1,5–2 horas para a visita propriamente dita e o mesmo tempo para a descida. O ideal é levar um piquenique leve — não há cafés junto às escavações. A aldeia de Yavu oferece cafés modestos e, por vezes, azeite local.
Para o fotógrafo, as horas de ouro são o início da manhã (sarcófagos com luz lateral, silhuetas contra o fundo do mar) e o pôr-do-sol (luz quente sobre os túmulos rochosos). Combine a visita a Cyaneae com uma viagem de um dia pela rota Demre (Myra) — Kekova — Cyaneae — Kaş: quatro locais lícios de destaque num único itinerário.